Entre o Confete, o Apito e a Urna
Dizem que no Brasil o ano só começa depois que o último confete toca o chão da quarta-feira de cinzas, mas em 2026 essa máxima parece um eufemismo.
Quando a ressaca de fevereiro finalmente bater, não haverá o habitual silêncio de espera. O brasileiro tirando o glitter do rosto já vai sentindo o vento frio de junho trazer o eco de um apito distante. Mal teremos tempo de guardar as fantasias de cetim e as sandálias gastas, e as vitrines já estarão tingidas pelo mesmo verde e amarelo que, meses depois, ganhará um peso muito mais grave.
O hiato entre o Carnaval e a Copa do Mundo será como aquele instante de suspensão antes de um mergulho profundo. Em junho, o país se veste de torcedor com a urgência de quem precisa de um alento. As ruas, que antes pertenciam aos blocos, serão tomadas pela ansiedade dos 90 minutos. É o momento da trégua sagrada: durante aquelas semanas no meio do ano, o vizinho com quem não falamos e o estranho no bar tornam-se irmãos de fé. O grito de gol é a nossa única unanimidade temporária, um respiro de euforia coletiva antes que o calendário nos empurre para o inevitável embate do destino.
Pois a verdade é que, assim que a última rede balançar nos estádios da América do Norte, o ar mudará de temperatura novamente. O som das cornetas será substituído pelo jingle persistente, e o verde e amarelo da camisa 10 começará a disputar espaço com os adesivos de peito. A eleição de outubro surge no horizonte não como uma festa, mas como um acerto de contas com o futuro. Se a Copa é o sonho, outubro é o despertar. Saímos do êxtase do gramado para a sobriedade da urna, trocando a chuteira pela caneta, a paixão cega pela escolha lúcida.
Ao fim de tudo, quando o segundo turno entregar suas respostas e o ano finalmente ameaçar terminar, restará ao brasileiro aquela exaustão gratificante de quem viveu três vidas em doze meses.
Teremos sido foliões, técnicos de futebol e cidadãos, tudo com a mesma intensidade que só este solo permite.
Em 2026, o Brasil não apenas passará pelo tempo; ele será atravessado por ele, entre o suor da avenida, a lágrima do gol e o peso silencioso do voto.

