O Camarote da Hipocrisia
O cenário das festas populares no Brasil virou um verdadeiro balcão de negócios onde o cinismo é a moeda principal.
É uma ironia ácida: artistas e empresários que enchem o peito para demonizar a Lei Rouanet, bradando contra o uso de recursos públicos na cultura, são os mesmos que estendem a mão para abocanhar cachês astronômicos de prefeituras do interior, muitas vezes em cidades onde falta o básico na saúde e na educação.
Enquanto a Lei Rouanet exige projetos, prestação de contas e contrapartidas, o “show da prefeitura” virou o atalho perfeito para o lucro fácil sem fiscalização rigorosa. É o ouro público derramado em palcos montados sobre o descaso.
O caso denunciado em São José do Rio Preto, envolvendo o show da Banda Guns N’ Roses e a atuação corajosa do vereador João Paulo Rillo, é o retrato escarrado dessa hipocrisia. Transformar o espaço público em estacionamento privado para lucrar sobre o que já deveria ser do povo não é empreendedorismo; é parasitismo. É a privatização do lucro e a socialização do prejuízo.
O que deveria ser fomento cultural virou um “mercado paralelo de exploração”. Esses “empresários” da fé pública e do entretenimento predatório tratam o patrimônio comum como cercado particular. A cultura não precisa de “salvadores” que criticam o incentivo fiscal enquanto operam esquemas de privilégios em recintos públicos. Precisamos de transparência, ou continuaremos assistindo ao espetáculo de ver o dinheiro do contribuinte virar poeira sob as rodas de um sistema que só diverte quem está faturando.
O espetáculo da hipocrisia só sobrevive nas sombras. Enquanto esses ‘abutres’ do entretenimento sobrevoam os cofres municipais em busca de carcaças orçamentárias, a transparência é tratada como inimiga. Onde deveria haver prestação de contas rigorosa, encontramos contratos nebulosos e a exploração predatória de espaços que pertencem ao povo — como o chão de um estacionamento público vendido a preço de ouro por quem não o construiu.
Gestão pública séria se faz com posto de saúde abastecido, escola de tempo integral e assistência social de verdade, não com o financiamento de palcos superfaturados para sustentar o luxo de ‘estrelas’ e a ganância de empresários oportunistas.
É o auge do oportunismo: usam o discurso de ‘moralidade’ para atacar leis de incentivo fiscal, mas não hesitam em saquear o patrimônio público através de parcerias obscuras e cachês inflados. Negam ao cidadão o direito básico à cultura diversificada e acessível e também não prestigiam os artistas locais, enquanto transformam a festa popular em um gueto de lucro privado.
A gestão pública não pode ser o balcão de negócios de empresários sem escrúpulos.
Enquanto a sociedade não exigir que cada centavo gasto no palco seja auditado e que cada metro quadrado público seja protegido da sanha desses saqueadores, continuaremos pagando o ingresso de um show onde o único palhaço é o contribuinte.
É hora de arrancar a máscara desses ‘moralistas’ de ocasião e devolver o que é público ao seu verdadeiro dono: o povo.

