O Estômago de Aço da Esplanada
Diz a sabedoria popular que quem não tem estômago não se mete na cozinha. Na política, no entanto, a regra é mais visceral: quem não tem estômago não atravessa a Praça dos Três Poderes. Não falo aqui de apetite por banquetes oficiais, mas de uma anatomia adaptativa, quase sobre-humana, necessária para digerir o que a governabilidade serve no banquete diário do poder.
O estômago de um político de carreira é um órgão que desafia a biologia. Enquanto o cidadão comum sofre de azia ao ler o jornal matinal, o articulista dos acordos precisa de uma mucosa revestida a chumbo. Governar, afinal, não é escolher o cardápio dos sonhos, mas aprender a engolir o que é indigesto para que o corpo do Estado não sofra de inanição.
A tal “governabilidade” é um prato que se come quente, frio e, muitas vezes, com um tempero de conveniência que faria qualquer purista desmaiar. É o aperto de mão com o adversário que, até ontem, era o vilão da vez. É a partilha de cargos com quem não sabe a diferença entre o público e o privado, mas sabe exatamente quantos votos tem na manga.
Para o político, a náusea é um luxo que ele não pode se permitir. Se ele vomita o acordo, o sistema trava; se ele se recusa a sentar à mesa, o governo cai por falta de quórum.
Há quem chame isso de pragmatismo. Outros, de falta de brio. Mas, observando de perto, nota-se que o estômago político funciona como uma usina de reciclagem. Ele recebe o lobby, o fisiologismo e as alianças espúrias, processa tudo aquilo em silêncio e devolve, na outra ponta, um projeto aprovado, uma verba liberada ou uma estabilidade capenga, mas funcional. É uma dieta de sapos — gordos, vivos e coaxantes — engolidos sem direito a um copo d’água para ajudar na descida.
O drama do “estômago de aço” é que, com o tempo, o paladar se perde. De tanto digerir o necessário em nome do possível, o político corre o risco de esquecer o gosto da convicção. A governabilidade vira um fim em si mesma, e o estômago, de tanto se expandir para acomodar novos aliados, acaba ocupando o lugar que deveria ser do coração ou do cérebro.
No fim das contas, a política brasileira é uma grande prova de resistência gástrica. Sobrevive quem tem a melhor digestão, não quem tem as melhores ideias. E assim seguimos, entre uma crise e um acordo, esperando o dia em que o menu mude e o “Congresso” hoje “inimigo do povo”, ao menos, com o “orçamento secreto” e havidos e ávidos de chefs da corte decidem quem vai pagar a conta do banquete. Não devem ser os trabalhadores e os mais humildes.

