O ‘Evangelho’ Segundo o Terceiro Tempo (Mentiras de Chuteiras)
O zelador do Tênis Clube não varreu o interior daquela associação na segunda-feira; ele purificou o espaço dos pecados da véspera. A vida sem futebol é um tédio crônico. O ser humano nasceu para a dramaturgia. A realidade é apenas um roteiro bruto que a gente lapida com boas doses de malícia, vaidade e cara de pau.
Edilson, o “Dilsinho” juntamente com o Flávio, conhecido também como Popó ou Linguiça, e a turma da “ferrovia” fizeram um evento espetacular objetivando arrecadar alimentos para o “Hospital de Amor” de Jales – SP, no campo de racha do Tênis Clube, contando com o apoio do “Corvina”, o imortal Evaldo, que não se tornou cantor (a gosto do Euricão) mas virou o craque da camisa 9, embora não participou do jogo, nesse dia, ficou fora do jogo para entregar bolos para a Meire (rende mais). Ninguém acreditou.
O futebol de fim de semana é o maior mercado consumidor dessas mentiras criativas. Nas segundas-feiras, os escritórios do país e os trabalhadores na ferrovia viram filiais de Hollywood, todos, indistintamente, parecendo “artistas”. O cidadão que entra em campo pesando noventa quilos, com a panturrilha puxando no aquecimento e o pulmão pedindo socorro aos cinco minutos, reconstrói os noventa minutos da véspera como se fossem a final no Maracanã. Quem ouve as “resenhas” do terceiro tempo nem sente saudades de Pelé, Zico ou Sócrates.
A distância entre a física da várzea e o ego do atleta é um abismo poético.
No churrasco de celebração, o lance capital ganhou contornos de erotismo esportivo, pois o Dilsinho, esbravejava: “Chamei o centroavante para dançar um tango, matei a bola no peito de veludo e coloquei onde a coruja dorme, com efeito cascata”. A câmera do celular, essa grande vilã da autoestima moderna, registra algo bem mais rústico: o chute saiu torto, rasteiro, o centroavante adversário tropeçou no próprio cadarço e a bola bateu nas nádegas do Flávio antes de entrar chorando. Mas a verdade dá reumatismo; a versão pós jogo alimenta a alma.
A provocação e a malandragem ganham força na arquibancada, onde o futebol vira a desculpa perfeita para sumiços inexplicáveis. É o clássico “vou ali jogar um racha com o cunhado Gilberto”, anunciou Flávio para Liziene. Esperta, ela logo rebateu: “Nós vamos também!”, levando o pequeno Benício, filho do casal, para testemunhar as supostas pontes mirabolantes do pai no gol.
A verdade é que Flávio queria mesmo era usar o bebê como testemunha de suas defesas magníficas. O plano só falhou por um detalhe: Benício tem apenas três meses e ainda não fala para confirmar as histórias. Já o outro filho de Flávio, Eduardo, também não pôde servir de testemunha: ou porque as tais defesas nunca aconteceram, ou porque ele passou o tempo todo jogando bola com os outros meninos atrás do gol.
Ganhamos batalhas que nunca travamos porque mentir para os outros é vaidade, mas mentir para si mesmo é sobrevivência. No terceiro tempo, diante de uma cerveja estupidamente gelada, os gols perdidos viram injustiças divinas e as caneladas violentas viram “imposição física de liderança”.
Se a história oficial do mundo é escrita pelos vencedores, a nossa crônica pessoal é escrita pelos nossos desejos mais sem-vergonhas. Se a verdade entrasse em campo, a vida seria apenas um bando de pernas de pau correndo atrás do prejuízo. Ainda bem que nos resta a ficção. Entre o tédio da pura realidade e o fogo de uma mentira bem contada, o leitor há de concordar: a rede sempre balança mais gostoso na nossa imaginação.
Quando o árbitro Gilberto apitou o fim do jogo, o placar de números já não importava mais. A verdadeira goleada estava escrita nos fardos de esperança empilhados, destinados a quem luta pela vida. Naquela tarde, os operários dos trilhos provaram que a Ferrovia não transporta apenas cargas pesadas, mas também carrega o peso do amor ao próximo. O apito final não encerrou a partida; deu início a uma jornada de amor, onde o maior troféu foi a certeza de que a solidariedade é o trilho que os une.

