A ARTE FICA DIANTE DO SER HUMANO

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino
Depois de bater nas portas e confrontar o mundo, a Arte decidiu parar. Só parar, diante do ser humano. Sem pressa, sem barulho, sem espetáculo. Apenas existir ali, com a calma de quem sabe exatamente o seu valor.
E foi nesse silêncio que a cena se tornou mais clara do que nunca. A Arte olhou o ser humano nos olhos e percebeu que ele quase sempre vive assim: com pressa demais para sentir, cansado demais para perceber, vaidoso demais para aprender e ignorante o suficiente para acreditar que não precisa de nada além da própria opinião.
O ser humano, coitado, achou que estava encarando a Arte, mas não estava.
Estava se encarando, e isso sempre foi o seu maior pavor.
Porque a Arte, quando se coloca diante de alguém, não mostra cor, forma, técnica. Mostra verdade. E verdade dói mais do que qualquer crítica.
Só que o ser humano… ah, o ser humano tem um talento especial: ele sente a verdade chegando e imediatamente procura um jeito de se defender dela.
Alguns desviam o olhar. Outros fingem superioridade. Outros ainda sorriem com aquele sorriso vazio de quem não entendeu nada, mas tem vergonha de admitir.
A Arte observa tudo isso com uma paciência quase divina. Ela vê como o ser humano insiste em chamar beleza de inutilidade.
Como insiste em confundir profundidade com perda de tempo. Como ainda acredita que tudo o que não gera lucro é desperdício.
É até curioso, a Arte oferece ponte, e o ser humano escolhe muro.
A Arte oferece cura, e o ser humano escolhe desculpa.
A Arte oferece sentido, e o ser humano escolhe distração.
Não por maldade. Por limitação mesmo.
Uma limitação tão cotidiana que o próprio ser humano nem percebe mais que vive nela.
A Arte, firme e tranquila, não julga, apenas expõe. Expõe o vazio que o ser humano tenta preencher com tudo, menos com aquilo que realmente o sustentaria. Expõe a fragilidade mascarada de força. Expõe a pobreza emocional disfarçada de pragmatismo. Expõe a carência escondida atrás de todos os seus “não preciso disso”.
E o mais impressionante, o mais triste e ao mesmo tempo o mais irônico é que
a Arte continua ali. Disponível. Acessível. Generosa.
E mesmo assim, o ser humano passa por ela como quem passa por uma flor na rua sem perceber que pisou na própria salvação.
No final daquele encontro silencioso, a Arte não disse nada. Não precisava.
Bastava existir para mostrar que, entre ela e o ser humano, só um sabe quem realmente está vivo.
E, infelizmente, não é o ser humano.

