A Cultura da Urgência
O esgotamento coletivo e o colapso emocional nas organizações

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino
Há empresas que vivem como se estivessem em guerra.
Tudo é crítico. Tudo é inadiável. Tudo é agora.
Não existe ritmo. Só corrida.
Essa é a cultura de urgência: quando o extraordinário vira rotina e o limite vira fraqueza. Quando pedir tempo é visto como incompetência e respirar é tratado como luxo.
No começo, parece eficiência.
No meio, parece adrenalina.
No fim, é colapso.
O corpo humano não foi desenhado para viver em estado de emergência contínua. Ele até aguenta picos. Mas não aguenta a vida inteira em sirene.
A mente começa a falhar. A memória cai. A irritação sobe. O choro vem sem aviso.
O nome clínico disso é esgotamento emocional. O nome real é: o sistema travou.
Pessoas em cultura de urgência não ficam apenas cansadas, ficam fragmentadas.
Perdem a capacidade de pensar em conjunto, de refletir, de sentir o próprio corpo.
Vivem como se estivessem sempre atrasadas para uma catástrofe que nunca termina.
E a empresa chama isso de “alta performance”, mas o que ela está produzindo é uma legião de pessoas em modo automático, sustentando metas que não permitem presença.
A urgência permanente mata algo essencial: a capacidade de perceber.
Perceber o outro. Perceber o erro. Perceber o cansaço. Perceber o absurdo.
Sem isso, o colapso não é exceção. É destino.
Empresas que nunca param ensinam suas pessoas a nunca sentir. Até que o corpo sente por elas, em forma de crise, afastamento, doença, ruptura.
A cultura de urgência não acelera o futuro. Ela apenas antecipa o fim.

