A Engenharia do Cuidado

Publicado em 28/02/2026 00:02

Psicologia e arte como tecnologias de cuidado e transformação cultural

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino

Depois de desorganização, medo, paralisia e urgência, sobra o quê?
Sobra gente cansada, desconectada de si, trabalhando em estruturas que já não sabem para que existem.
A pergunta que fica não é: “Como aumentar a produtividade?”
É: “Como devolver humanidade a um sistema que esqueceu que é feito de gente?”
E é aqui que psicologia e arte deixam de ser acessórios e viram engenharia profunda.
A psicologia entra onde os relatórios não chegam.
Ela escuta o que não foi dito, o que foi engolido, o que virou sintoma.
Ela revela onde o medo mora, onde a ansiedade se instala, onde a depressão se esconde, onde o burnout se organiza. Mas só entender não basta.
Porque empresas não adoecem só por ideias erradas. Elas adoecem por experiências mal vividas.
É aí que a arte entra. A arte cria espaço simbólico para o que não consegue ser falado.
Ela permite que o corpo expresse, que a emoção atravesse, que a narrativa seja reorganizada.
Quando uma pessoa participa de uma experiência artística dentro de uma empresa, algo raro acontece: ela deixa de ser função e volta a ser sujeito.
E sujeito pensa. Sujeito sente. Sujeito se implica.
É isso que reconstrói uma cultura.
A psicologia fornece o mapa. A arte permite atravessar o território.
Juntas, elas fazem algo que nenhum treinamento faz: transformam a experiência de estar ali.
Não é sobre motivar. É sobre descongelar.
Descongelar pessoas que estavam em modo defesa. Descongelar equipes que pararam de confiar. Descongelar lideranças que aprenderam a mandar, mas não a escutar.
Quando a empresa passa por processos psicossociais e experiências artísticas, ela cria linguagem para conflitos, espaço para emoção, estrutura para reorganização, tempo para reconstrução.
E, lentamente, aquilo que era ansiedade vira clareza, o medo vira diálogo, a paralisia vira movimento e a urgência vira ritmo.
A empresa não vira perfeita. Ela vira habitável.
E no fim, isso é o que toda organização busca, mesmo sem saber: um lugar onde trabalhar não seja uma forma de se perder de si.

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