A Jaula Mais Forte Era a Vergonha

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino
No Circo dos Horrores, havia jaulas de todos os tamanhos. Algumas eram feitas de ferro, outras de vidro, outras de aplausos, mas a mais forte de todas ninguém conseguia enxergar. A vergonha!
Ela não fazia barulho, não tinha cadeado, não deixava marcas visíveis no corpo. Mesmo assim, mantinha pessoas presas por décadas.
A Mulher Barbada passou anos escondendo o rosto.
O Homem Invisível aprendeu a desaparecer em silêncio.
O Palhaço tremia quando alguém tentava abraçá-lo.
O Menino Monstro pedia desculpas por existir.
Nenhum deles nasceu assim.
A vergonha sempre chega pelas mãos dos outros primeiro.
Ela começa pequena. Na risada, depois da resposta errada, no comentário sobre o corpo, na humilhação diante da família, no amor que vai embora dizendo:
“ninguém vai te aguentar”.
Depois cresce. E um dia a pessoa já não precisa mais ser trancada. Ela mesma segura a porta da própria jaula.
Esse é o verdadeiro espetáculo da sociedade: transformar feridas em identidade.
Há pessoas que têm vergonha da própria tristeza, vergonha do próprio desejo, vergonha do corpo, da idade, da voz, da pobreza, da sensibilidade. Como se existir fora do padrão fosse uma falha moral.
O mais cruel é que a vergonha raramente grita. Ela sussurra.
“Não fala.” “Não aparece.” “Não tenta.” “Não ocupa espaço.” “Não seja demais.” E assim a vida vai diminuindo alguém por dentro.
No Circo dos Horrores, o público apontava para as aberrações sem perceber uma coisa: quase todo mundo ali também vivia enjaulado.
Uns pela necessidade de parecer fortes, outros pela obrigação de parecer felizes. Alguns pela imagem, outros pelo medo absurdo de não serem amados, porque existem pessoas que passam a vida inteira interpretando normalidade. E cansa.
Cansa sorrir quando se quer desaparecer, cansa fingir segurança enquanto o coração treme, cansa pedir desculpas pela própria existência.
Talvez seja por isso que certas histórias machucam tanto.
Elas não mostram monstros. Mostram espelhos.
E poucos lugares são mais assustadores do que um espelho que finalmente decide dizer a verdade.

