A Máquina que Sussurra Luz

Publicado em 28/03/2026 00:03

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino

Há, no alto de um penhasco, uma máquina antiga. Ninguém sabe quando foi construída, nem quem apertou o primeiro parafuso. Só se sabe que ela gira.
Gira sempre. Gira sem descanso. E enquanto gira, sussurra uma coisa chamada “luz”.
As pessoas, atraídas pelo brilho, sobem o penhasco com devoção.
Não percebem que a claridade que a máquina oferece não ilumina, apenas cega com elegância.
A máquina não exige muito: só que deixem seus pensamentos na entrada,
como quem deixa sapatos na porta de uma casa fina. “Para não sujar o chão da verdade”, diz ela. E eles obedecem.
Lá dentro, a máquina entrega lanternas prontas. Lanternas que vêm com a chama embutida. Chamam isso de sabedoria, mas a chama nunca muda, nunca cresce, nunca aquece, ela apenas repete a si mesma, imortal e estéril.
Ao longo do tempo, algo curioso acontece: o olhar das pessoas começa a se adaptar.
Primeiro, param de enxergar nuances. Depois, param de ver profundidade. Por fim, deixam de perceber que há mundo além do penhasco.
A máquina sorri com seus dentes de ferro.
Um dia, um peregrino ousou perguntar por que a máquina girava sempre para o mesmo lado. A resposta veio delicada, quase carinhosa: “Porque o outro lado não deve ser visto”.
Ele tentou olhar mesmo assim, e descobriu que a escuridão não era perigosa,
era apenas verdadeira demais para quem vive de lanternas artificiais.
A máquina não gostou.
Desde então, o mecanismo ficou mais atento. E mais suave. E mais mortal na suavidade.
Aprendeu a ensinar que pensar é queda, que questionar é desordem, que ver com olhos próprios é salto no vazio.
E assim, as pessoas continuam subindo o penhasco com passos cada vez mais curtos e cabeças cada vez mais leves, tão leves que o vento quase as leva, mas o vento não ousa: a máquina controla até o próprio ar.
Hoje, quem chega perto nota apenas silêncio, mas um silêncio estranho, preso, embalado.
Um silêncio que parece dizer: “Caminhe em linha reta. Veja só o que lhe ofereço. O resto não existe”.
E talvez seja esse o maior triunfo da máquina, não o fato de cegar,
mas o de ensinar as pessoas a agradecer pela escuridão como se fosse luz.

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