A Política da Estagnação

Publicado em 14/02/2026 00:02

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino

Quando a procrastinação institucional produz desengajamento e depressão

Há empresas que não são violentas. Elas são paralisadas.
Não gritam. Não ameaçam. Não explodem. Elas adiam.
Adiam decisões. Adiam conversas difíceis. Adiam mudanças óbvias. Adiam reconhecer que algo morreu.
O nome disso é procrastinação institucional: quando uma organização sabe que precisa agir, mas escolhe ficar imóvel porque agir custaria conflitos, cortes, coragem.
Essas empresas vivem em estado de “quase”.
Quase vão reestruturar. Quase vão rever lideranças. Quase vão mudar processos. Quase vão ouvir as pessoas. Mas nunca vão.
E o custo disso não aparece no balanço, aparece nos olhos de quem trabalha lá. Porque trabalhar em um lugar onde nada muda produz uma forma específica de depressão: a depressão por estagnação.
A pessoa não está sobrecarregada. Está inutilizada.
Ela tem ideias que não saem da gaveta. Vê problemas que ninguém quer nomear. Sente que poderia contribuir mais, mas o sistema não se move para recebê-la.
Então ela começa a encolher.
Primeiro a energia. Depois a iniciativa. Depois a esperança.
A depressão organizacional não vem do excesso. Ela vem do vazio.
Do dia após dia de fazer coisas que não mudam nada. De participar de reuniões que não decidem nada. De viver em projetos que não saem do papel.
A alma humana precisa sentir que provoca algum deslocamento no mundo. Quando tudo fica congelado, a pessoa entra em colapso interno.
Empresas assim dizem: “As pessoas aqui são desmotivadas.” Mas o que elas criaram foi um ambiente onde querer dói. Porque querer algo em um sistema que nunca responde é como gritar dentro de um aquário.
A procrastinação institucional não é neutra. Ela é depressiva.
Ela transforma gente viva em funcionários em modo espera.
E ninguém permanece inteiro esperando eternamente.

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