Entre o ontem e o amanhã, esquecemos de viver

Publicado em 15/08/2026 11:08

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino

Existe uma prisão que não tem grades. Ela não faz barulho, não aparece nas fotografias e ninguém consegue enxergá-la do lado de fora. Mesmo assim, milhões de pessoas passam a vida inteira encarceradas nela.
Essa prisão tem dois carcereiros, um se chama passado, o outro se chama futuro.
O passado chega carregando arrependimentos, culpas, perdas e feridas. Ele sussurra que você deveria ter dito outra palavra, feito outra escolha, amado mais, brigado menos, chegado antes, partido depois. E, sem perceber, você começa a reviver todos os dias aquilo que nunca mais poderá ser mudado.
O futuro faz diferente. Ele não mostra lembranças, ele fabrica medos, inventa doenças que talvez nunca existam, fracassos que talvez jamais aconteçam, abandonos que talvez nunca cheguem. Ele transforma possibilidades em certezas e faz o coração sofrer por dores que ainda nem nasceram.
É curioso. O passado já morreu, o futuro ainda não nasceu, mas os dois conseguem roubar a única coisa que realmente existe: o presente.
A felicidade não mora no ontem, também não está escondida no amanhã. Ela vive nesse instante simples em que você respira, olha para quem ama, sente o vento no rosto, agradece pelo café quente, pela conversa sincera, pelo abraço que ainda pode ser dado.
Quem vive preso ao passado deixa de enxergar as novas portas que Deus abre.
Quem vive assustado com o futuro perde a coragem de atravessá-las.
A vida acontece agora.
É hoje que o filho precisa do seu abraço, é hoje que o amigo espera uma ligação, é hoje que seu corpo pede descanso, é hoje que sua alma pede paz.
Talvez a felicidade nunca tenha sido encontrar uma vida perfeita, talvez ela seja apenas aprender a caminhar leve, carregando menos culpas e alimentando menos medos, porque, no fim das contas, para viver em paz, precisamos aprender duas grandes libertações: deixar que o passado ocupe apenas o lugar da lembrança e permitir que o futuro permaneça apenas onde sempre pertenceu, nas mãos de Deus.
Enquanto isso, viva, porque o único tempo que realmente nos pertence chama-se agora.

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