Fique perto de quem te acorda por dentro

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino
A maioria das pessoas acorda, mas não desperta. Abre os olhos, escova os dentes, responde mensagens, corre para o trabalho e ainda assim passa o dia inteiro meio adormecida. No automático, no piloto, na repetição.
Respira, mas não sente, fala, mas não se escuta, vive, mas não se percebe. É como se a vida estivesse acontecendo sempre um pouco longe demais.
Só que, de vez em quando, algo muda. Você encontra alguém e fica mais leve.
Alguém fala com você e sua mente clareia. Alguém ri e você ri diferente, mais solto, mais verdadeiro, como se o corpo lembrasse quem você era antes de se endurecer.
Tem gente que não cansa a gente, tem gente que acorda a gente! E isso é raro, muito raro!
A psicologia explica: somos seres profundamente relacionais, nosso sistema nervoso se regula no encontro. Não é metáfora, é biologia.
Algumas presenças diminuem seu cortisol, outras aumentam. Algumas expandem sua criatividade, outras sugam sua energia. Algumas fazem você se sentir incompetente, outras fazem você lembrar do seu valor sem dizer uma única palavra.
Tem gente que te encolhe, tem gente que te cresce.
E o mais curioso? Você sente isso no corpo antes de entender com a cabeça.
Perto de certas pessoas, você trava. Mede cada frase, endurece os ombros, vira defesa.
Perto de outras, você respira fundo sem perceber, fala bobagem, cria planos, sonha alto, vira você!
Essa é a pista. Preste atenção em quem desperta a sua melhor versão, não quem impressiona, não quem valida seu ego, não quem parece importante, mas quem te faz simples, quem te faz verdadeiro, quem te faz corajoso sem pressão.
Essas são as pessoas do seu círculo. O resto é plateia, e plateia não sustenta ninguém.
Existe uma ilusão adulta de que relação é quantidade. Mais contatos, mais networking, mais grupos, mais presenças, mas maturidade emocional é curadoria. É qualidade.
Cinco pessoas certas valem mais que cinquenta distrações, porque convivência é contágio. Você começa a falar como quem convive, pensar como quem convive, sonhar ou desistir, como quem convive.
Se você passa tempo demais com gente amarga, aprende a reclamar, com gente cínica, aprende a desacreditar, com gente acomodada, aprende a encolher seus planos.
Mas perto de gente viva você acorda! Gente viva puxa você pra cima sem esforço, acredita nos seus projetos quando você fraqueja, te lembra do seu talento quando você esquece, te confronta com carinho quando você se sabota. Não te diminui para caber, te expande para existir. E isso é amor na forma mais madura que existe.
Então faça algo intencional, não espere “quando der”. A vida não acontece “quando der”, ela acontece no que você prioriza.
Mande mensagem, marque o café, faça a visita, convide para o projeto, sente junto, construa memória! Relacionamentos bons não sobrevivem só de saudade, eles precisam de presença.
Tempo é a prova concreta de afeto. Quem você escolhe ver com frequência está, silenciosamente, moldando quem você está se tornando.
Escolha com consciência, porque, no fim, despertar não é um evento místico, é convivência, é estar perto de quem te lembra, todos os dias: “Olha, você é maior do que esse medo.”
E, às vezes, é só isso que a gente precisa para continuar.
Alguém que nos acorde por dentro!

