O Jardim das Mentes Silenciadas
Há um jardim que cresce silenciosamente no coração de muitas cidades.
De longe, ele parece belo: alinhado, uniforme, tranquilo.
De perto, porém, algo chama atenção, as flores são todas iguais.
Dizem que, um dia, ali floresciam espécies diversas: plantas curiosas, que buscavam luz própria; flores inquietas, que dobravam suas pétalas para descobrir novos céus; árvores antigas, guardiãs de histórias e perguntas; sementes ousadas, capazes de brotar no impossível.
Mas veio um jardineiro. Um jardineiro zeloso, habilidoso, apaixonado por ordem.
Ele trouxe tesouras afiadas, regras de cultivo, cercas altas e um livro com instruções sobre como cada folha deveria se comportar.
E o jardim, inocentemente, ofereceu seu verde. Aos poucos, poda após poda, explicação após explicação, o jardineiro ensinou as plantas a não crescerem para onde queriam, mas para onde ele apontava. E quando alguma pétala tentava se abrir um pouco mais, era gentilmente advertida de que isso poderia atrair tempestades.
Assim, por prudência, todas começaram a se recolher.
A criatividade, aquela pequena abelha dourada que polinizava ideias, passou a visitar menos o lugar, constrangida pelas cercas; a sabedoria, a velha árvore-mãe, perdeu galhos, depois força, depois voz; e o vento, outrora livre, já não ousava dançar ali dentro, com medo de bagunçar a simetria cultivada.
O milagre é que o jardim continuou lindo. Lindo e silencioso.
Lindo e obediente. Lindo e, de alguma forma, vazio. Porque, sem perceber, as plantas aprenderam um novo tipo de crescimento: crescer apenas até onde não incomoda.
O jardineiro caminhava entre elas satisfeito, e elas o seguiam com um respeito que não sabiam se era amor ou medo, pois suas raízes, antes profundas e vivas, haviam sido ensinadas a buscar menos terra e mais aprovação.
Numa tarde, uma borboleta pousou ali, viu tudo, e entendeu.
A beleza ainda existia, sim, mas era uma beleza contida, domesticada, desidratada da alma. Um jardim de mentes que deixaram de perguntar por que florescem, e quando um jardim esquece por que floresce, ele não deixa de existir,
ele apenas deixa de ser vivo.
Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino

