Quem não olha pra própria sombra tropeça nela e a chama de destino

Publicado em 16/05/2026 00:05

Solange das Flores Nascimento (Sol Flores) – Psicóloga psicanalista, atriz e diretora profissional e pós graduada em metodologia do ensino

Existe um tipo curioso de gente que acorda todo dia achando que o mundo é o problema. O governo, a mãe, o ex, o signo, o mercúrio retrógrado, o café fraco.
Essa gente não erra, é sabotada. Não machuca, é mal interpretada. Não repete padrão, é azar. São os Perfeitos.
Os Perfeitos não têm medo, têm “intuição”, não têm impulsos, têm “personalidade forte”, não têm traumas, têm “passado resolvido” (resolvido por decreto interno, nunca por investigação).
E assim seguem, impecáveis, escorregando nas próprias sombras e chamando o tombo de injustiça histórica, porque a verdade é simples e indigesta: o que você não reconhece em si não desaparece, se organiza.
Cria sindicato, assume o volante, escolhe seus amores, decide seus rompantes, sabota seus projetos com a precisão de um sniper emocional.
O medo ignorado vira agressividade.
O trauma negado vira controle.
A sombra rejeitada vira moralismo.
E o impulso reprimido, bom, esse vira discurso bonito em rede social.
Reconhecer não é fraqueza, é cirurgia. É ligar a luz do porão sabendo que vai ter coisa feia, sim, mas pelo menos agora ela não anda solta pela casa.
Quem não desce ao próprio inferno pessoal terceiriza o mal.
Aponta culpados.
Cria monstros externos.
E se proclama vítima de forças misteriosas que, curiosamente, só atacam gente que nunca olha pra dentro.
No Jornal dos Perfeitos, isso se chama “equilíbrio emocional”.
Aqui fora, a gente chama de prisão invisível, porque liberdade não é ser limpinho por fora.
Liberdade é saber exatamente onde mora o seu caos, e não deixar ele assinar contratos no seu nome.
Assinado, Alguém que já caiu, levantou, olhou a sombra nos olhos e parou de chamar isso de azar.

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